Levo comigo um maço vazio e amassado de Republicana e uma revista velha que ficou por aqui. Levo comigo as duas últimas passagens de trem. Levo comigo um guardanapo de papel com minha cara que você desenhou, da boca sai um balãozinho com palavras, as palavras dizem coisas engraçadas. Também levo comigo uma folha de acácia recolhida na rua, uma outra noite, quando caminhávamos separados pela multidão. E outra folha, petrificada, branca, com um furinho como uma janela, e a janela estava fechada pela água e eu soprei e vi você e esse foi o dia em que a sorte começou.
Levo comigo o gosto do vinho na boca. (Por todas as coisas boas, diziamos, todas as coisas cada vez melhores que nos vão acontecer.)
Não levo uma única gota de veneno. Levo os beijos de quando você partia (eu nunca estava dormindo, nunca). E um assombro por tudo isso que nenhuma carta, nenhuma explicação, podem dizer a ninguém o que foi.
Olha, meu bem
tenha em você que há de cindir
o que existe aí entre cindy crawford
e cinderela
Insistente a vida nos projeta imaturos
em musgos de muros trincados
em intrincados retornos
que nos torna donos
do que ainda nem sabemos
Você, meu amor,
humana, emana em mim
o que existe aqui de cotidiano
e de poeta
Somos o que nos assombra
de tudo o que sobra
de tudo o que soma
de tudo o que resta
Na noite insone
assoma em nós uma sombra
do que não somos
uma sombra do que não fomos
E ficamos confortáveis nos sonhos
dos próximos passos bêbados
dos olhos inteiros
e dos lábios risonhos
Olha, meu bem
haveremos de cindir
o que há de mim e de você
e juntar tudo em um beijo
que profane o inumano ser
Que recrie em nós o que é nosso
em todos os tempos
não mais retalhos em varais tensos
mas sob lençóis imensos
com o perfume dos corpos em atrito
por Mauricio Paroni de Castro, selecionados da Folha de São Paulo.
A LINHA DO PROSCÊNIO No final da apresentação de abertura do Festival Internacional de Microdramaturgia, a cortina desceu depois de dois minutos. Um ator ficou “preso” no proscênio. Silêncio. Sem saber o que fazer diante do vexame, disse o que lhe veio à cabeça. -Fim da tortura. Gargalhada seguida de aplauso. Encabulado, o ator se escondeu atrás da cortina fechada. Todos os outros perguntavam o que havia dito para receber o aplauso. Pausa. -Disse a verdade onde se mente. Pausa. -Atrás da cortina há sempre um ator. Mesmo sendo o público. Silêncio. AMOR FONÉTICO O marido a cercava de sussurros e presentes. Brincava horas e horas com os filhos. Quebrava o tédio ao embarcar para qualquer cidade europeia em que havia uma loja Ikea. Perambulava, obsessiva, pelas mercadorias expostas batizadas com aqueles nomes: bicicleta Leif; panela Lisbet; cortina Gunnhild; abajur Jørgen; sofá Magnus; cama Svenson; travesseiro Bjørn. Grisalha, atraente, fazia-se acompanhar -e oferecer- iguarias suecas do restaurante da loja. Encenava, com compulsividade ritual, a lacrimosa confissão de ter destruído a reputação do marido: cometera um crime de falsidade ideológica para salvá-lo da ruína econômica. Era uma Nora de Moema que curava ressaca emocional na caça de afinidades eletivas. A armadilha era pedir ao acompanhante a pronúncia de seu nome. Uma vez identificado um suposto anel escandinavo -å- na sua grafia, estava eleito o amante ocasional. -Einar. Pausa. -Leif. Pausa. Håvard. -Would you be so kind to spell it for me? Pausa. -H-å-v-a-r-d Silêncio. A BALADA DE ELECTRA O sessentão se divertia numa casa de swing. No labirinto, penetrava misteriosas fendas de parede com as mãos. Suava. Tocava corpos desconhecidos do lado oposto. Eletrizado, ouviu suspiros mais consistentes. Pausa. Voz familiar. Pausa. Buscou coragem para olhar atrás da treliça. Viu a sua filha. Silêncio. VÍTIMAS DE GUERRA A maître de balé trabalhava no programa de dança para deficientes físicos da União Europeia. Bélgica, Théâtre Royal de la Monnaie. Entusiasmada, era severa com a delicadeza dos braços. Acreditava atenuar o sofrimento moral das bailarinas mutiladas no bombardeio de um teatro, ocorrido alguns anos antes na ex-Iugoslávia. -Mais sutileza! Vamos! Pausa. -É um adágio! Sintam a música! Você, no fundo Dobrar a mão, jamais! Não vejo a tua mão! Silêncio. CASANOVA NEGRO Entretinha turistas perto da antiga prisão de Praga. Encapuçado, brandia um manchil de açougueiro com o corte cego. Explorava a sensação do jazer indefeso com a cabeça no tronco diante daquela figura, atenuada pelo fato de que o rapaz era negro e não usava luvas. Na Praga do século 17 não havia carrascos negros. A garoa rala banhava a cidade. Uma russa se apaixonou pela cena. Convidou o carrasco para beber cerveja. Pausa. Tropeçavam risonhos pelo calçamento. Apoiaram-se a um muro. Houve sexo intenso e fugaz perto das lápides amontoadas do cemitério judaico. Silêncio. O MESTRE Tadeusz Kantor estava muito aborrecido. Nada funcionava naquela criação. Aos berros, expulsou da sala de ensaio todos os presentes. Queria solidão. Pausa. O esqueleto de cena não se mexia. Insultou-o longamente. Pausa. Diante da insolência, agrediu-o até que se reduzisse a um monte de ossos. Silêncio. ENTREVISTA -Mr. Pinter, poderia elucidar de uma vez por todas a maior questão de sua obra: o que diferencia a pausa do silêncio? Pausa. -Nada. Deve-se contar até três quando for pausa. No silêncio, conte até cinco. Silêncio.
O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem, os anjos atuavam como uma espécie de agentes de segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território. O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.
No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência do país, e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes junto à nossa porta, os ditos terroristas são governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência. O preço dessa narrativa de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades.
Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no Poder alguns dos ditadores mais sanguinários de toda a história. A mais grave herança dessa longa intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos. A Guerra-Fria esfriou mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo, a Oriente e a Ocidente.
Para responder às novas entidades demoníacas não bastam os seculares meios de governação. Precisamos de investimento divino, precisamos de intervenção de poderes que estão para além da força humana. O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder. Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade.
Para enfrentarmos as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho começaria pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de “eles”. Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade é imprevisível. Vivemos – como cidadãos e como espécie – em permanente limiar de emergência. Como em qualquer estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa.
Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas incomodas como estas: porque motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento? Porque motivo se gastou, apenas o ano passado, um trilhão e meio de dólares com armamento militar? Porque razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia, são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadaffi? Porque motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça? Se queremos resolver (e não apenas discutir) a segurança mundial – teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes.
Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra. Essa arma chama-se fome. Em pleno século 21, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fração muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo. Mencionarei ainda outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida. É verdade que sobre uma grande parte de nosso planeta pesa uma condenação antecipada pelo fato simples de serem mulheres. A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo.
Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome, e como militares sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e de discutir razões. As questões de ética são esquecidas porque está provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência, nem de ética e nem de legalidade. É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A chamada Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente, morreram mais chineses construindo a Muralha do que vítimas das invasões que realmente aconteceram. Diz-se que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora de quanto o medo nos pode aprisionar. Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não há hoje no mundo, muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós do sul e do norte, do ocidente e do oriente. Eduardo Galeano escreveu sobre o medo global: “Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quando não têm medo da fome, têm medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras. E, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe.
Desde que saí de casa trouxe a viagem da volta gravada na minha mão e enterrada no umbigo dentro e fora assim comigo minha própria condução Todo dia é o dia dela pode não ser pode ser abro a porta e a janela todo dia é dia D Há urubus no telhado e a carne seca é servida um escorpião encravado na sua própria ferida não escapa só escapo pela porta da saída Todo dia é mesmo dia de amar-te e a morte morrer; todo dia é mais dia, menos dia é dia D.
Só pode morrer quem não tem ninguém para cuidar. Penso. Quem não tem ninguém para cuidar já está morto. Viver é doar o sangue da generosidade, eis o pulso. A cada dia tal essência pode ser percebida. Não? Cuidar de si tem um único objetivo: cuidar dos outros. Intuo. Precisamos ser capazes de reconhecer que não somos capazes de tomar cuidado como se deveria. Daí a necessidade constante de aperfeiçoamento. Abster-se também é cuidar. Não arrogar-se saberes. Escutar. Morrer-se de propriedades, nascer-se de entregas. Me quero para outrem: queiram-me.